29 de jun de 2009

OS DESAFINADOS

Chovendo, inverno, não é precisei ser muito criativa para ter a brilhante idéia de colocar em dia os filmes que perdi no circuitão porque corri atrás dos alternativos. Assim nada como Rodrigo Santoro embaixo das cobertas com chocolate quente!

E isso foi tudo o que realmente aproveitei deste filme, o prazer de estar Rodrigo Santoro, Claudia Abreu e Selton Melo num domingo chuvoso e friorento num cantinho quentinho.E eu que jamais falo mal do cinema nacional poderia ter visto algo muito melhor. Não é que o filme seja ruim, mas poderia ser bem menor. Vale pelas interpretações enxutas, na medida.Segundo meu irmão a culpa é da Bossa Nova, um tipo de música híbrida de samba e jazz tinha que dar nisso. Penso que culpa foi o excesso da minha expectativa na direção e roteiro do Walter Lima Jr que tentando gerar expectativa, me rendeu um desapontamento.
São 5 amigos que formam uma banda de bossa nova, em busca de uma voz feminina que surge como que por acaso. Ela aparece como flautista, logo surge cantora e musa e os rapazes vão e voltam entre os anos 60 e 2000 tantas vezes quantas são necessárias para nós não entendermos o que exatamente as idas e vindas estão tentando mostrar. Logo de início o susto é encontrar a voz de Selton Melo em Arthur Kohl, a dublagem nítida ainda que sincronizada, com certeza teve um propósito que realmente não consegui saber qual e me gerou um certo desconforto. Passei o filme inteiro tentando desvendar quais são nos anos atuais as personagens que vimos jovens nos anos 60.
Walter nos mostra algumas coisas que estamos já acostumados a ver na vida real como o amigo “boa pinta” e talentoso que ainda por cima “pega” as mulheres mais bonitas e tem sempre aquele jeitinho de ”tadinho” levemente deprimido. Tem aquele que não dá sorte com as mulheres e , que embora sofra, não transforma isso em drama. Davi (Ângelo Paes Leme) passa a vida à sombra do carisma de Joaquim (Rodrigo Santoro), apesar de serem parceiros na música, só dá Joaquim e algumas vezes percebemos o olhar melancólico de um sobre a vida cheia de tudo do outro que ainda reclama...
Glória, (bem) vivida por Cláudia Abreu, a bela e independente desbravadora de Manhattan, faz um contraponto com a não menos bela e ligeiramente sem graça por opção e anulação, Luíza (Alessandra Negrini). Imagino que o filme queira mostrar as diferenças entre comportamentos femininos, pois se uma está no exterior sozinha buscando seu sonho americano, a outra patrocina material e emocionalmente a viagem do amado em busca do sonho dele. Imagino que o filme queira mostrar as semelhanças entre o que se desiste e o que não se insiste. A destemida Glória que reconhece no texto "não saber se despedir" a despeito de saber fazer pirraça, provocar, ter ousadia para tomar banho de banheira diante dos amigos do namorado e do próprio e vai aceitando aquele amor pela metade do grande amor da sua vida.
Os desafinados em certos momentos parece ser isso, a história do sonho americano que não dá certo e nunca se sabe exatamente porque... A história de quem quando está aqui pensa que deve ir para lá e quando está lá só pensa em voltar... A história de quem passa a vida inteira dividido entre o que se sonha e o que se realiza.



Quem pareceu não insistir na América é quem está profissionalmente melhor colocado. Dico (Selton Melo) se não vive uma carreira interessante no cinema está “de boa” com a TV e as amizades antigas servem para imaginar um especial que lhe renda ibope e para os antigos companheiros apenas lembranças. Dois mil reais é quanto vale a imagem de todos eles, afinal, o investimento do esperto diretor segundo ele próprio é grande! Achei interessante a sutileza de ser justamente esta personagem que representava a esquerda, que faz um filme sobre reforma agrária o qual envia clandestinamente para fora país, uma vez que o golpe militar chegou juntinho com a finalização do filme. O filme ganharia um prêmio no festival de Moscou deixando seu diretor aborrecido. Afinal, neste filme todo querem sossego e sucesso com “algum trocado pra dar garantia”. Dico, indo pra Nova Iorque, promete comprar as entradas do Carnegie Hall, onde a música composta pelos amigos será vai ser tocada após a venda dos direitos para um editor americano. Dico compra um único ingresso – o seu próprio. Ele parece sempre deslocado, sempre sobrando... É o único não músico . É o único que como sonho tem apenas ser bem sucedido usando uma câmera. Ele não é visto com namorada e insiste em ficar de vela para os beijos alheios. Ele e filma muita coisa que permanece como material inédito, o que já nos mostra que nossos desafinados não conseguirão o almejado sucesso retumbante.

Este filme tem vários elementos interessantes porem parece faltar liga entre eles. Algumas coisas como por exemplo cantar “Copacabana Princesinha do Mar” no Central Park parece artificial embora não seja inverossímel... Mostrar o ambiente que cada um dos membros da banda deixou para sublinhar que não chegariam onde sonharam. E quando pensamos que estamos diante de um filme sobre o sonho americano, chega a repressão, a ditadura no Brasil e fora dele. Fala-se do músico que vende os direitos da sua música. Mostra o editor que faz a sua versão sem estar nem aí pro que a letra original queria dizer. Fala da inveja entre amigos, dos que têm tudo e constroem pouco por permanecerem divididos. É assim o Joaquim de Rodrigo Santoro: dividido entre um amor de verdade realizado e concreto e a paixão pelo inusitado e os dois sentimentos são tão genuínos que a pergunta parece ser: será que ele vai conseguir fazer uma escolha? Luíza também terá uma punição por aceitar a metade do que lhe cabe e a gente fica contente por ver como Alessandra Negrini pode simplesmente “desaparecer” quando solicitado pela direção.Por último é preciso falar sobre o único músico "feliz" nesta história, o ínico músico com sorriso de músico e capaz de olhar para Joaquim com a leveza que música nos dá: Geraldo, interpretado por Jair Oiveira, que acha linda a filha do amigo tão invejado por um e desdenahado por outro e que confessa-se louco para ter um filho, porem mais tarde, daí uns 2 anos... E finalmente podemos dizer que os desafinados fala sobre música

Nenhum comentário: