16 de out de 2009

DESCOBRINDO OS LIVROS


Acho que sempre fui uma boa criança. Me contentava fácil com qualquer coisa. Mas os adultos são insaciáveis e viviam reclamando do meu humor mutante, do meu "bico" quase constante. Não importava o quanto eu ficasse quieta, postura boa para eles era eu estar com a cara enfiada nos livros, de escola, note-se bem! E como eu amava o meu livro de português da 4ª série recheado de crônicas de Rubem Braga e Fernando Sabino! Poemas de Drummond e Cecília, umas pitadas de Bandeira! Mas o auge foi quando me apresentaram Cruz e Souza e Alphonsus Guimarães.

Eu era capaz de passar um dia inteirinho lendo. Comprar livros não era muito fácil, diria que era impossível. Mas eu conseguia muitos "no lixo" dos patrões do meu irmão que embora não lesse muito ou talvez nada, sempre que via um livro para ser descartado levava pra casa. Depois tornei-me sócia de uma biblioteca do bairro e guardava em segredo a minha expectativa de ir um dia à Biblioteca Nacional - Céus! Eu tinha uma foto da BN recortada da revista! Guardava escondida como se fosse a foto da minha namorada e eu, um soldado no front; ou como uma recém-casada que perde o noivo para a guerra na noite de núpcias e admira-lhe o retrato com desejo e sem saber o certo quando o amor se consumará. Era uma estrutura inimaginável, um templo, ao meus olhos de menina perdida numa varanda improvável de um bairro complicado e distante. Acho que as pirâmides egípcias não me fascinavam tanto quanto a fachada da Biblioteca Nacional que eu namorava naquela foto recortada de revista.... Não tinha menor idéia de como chegar naquele templo e mesmo depois que aprendi, faltaria ainda muito para que eu pisasse lá pela 1ª vez, posso, adiantar que ate hoje isso ainda não aconteceu...
O fato é que lia tudo o que me caísse às mãos e quando nada caía nelas, lia os verbetes do dicionário do MEC, o único livro respeitado naquela casa.
E quando na escola conheci o Simbolismo, alguma coisa mudou e eu nunca soube o que exatamente. Percebi que o poema era especial quando fruto de inspiração, porém saber fazer um poema era demonstrativo de competência, capacidade, fazia o poeta verdadeiro ser um poeta de verdade. Juntando-se a leitura ao conhecimento de estilos e técnicas literárias, surge algo que desafia a nossa alma a repetir a viagem que os antigos fizeram. E se eu não admirava Olavo Bilac, exceto o poema "Ouvir Estrelas", cmecei a ver sentido em "limar o poema" até que se tornasse simbolista, "engastando-lhe o precioso rubim"- Uma coisa boa na escola que só entendemos quando passa é justamente a obrigatoriedade conhecer também aquilo que não gostamos... Eu me via na torre de Ismália. E comecei a sentir-me simbolista no alto da minha torre de marfim! Claro que os temas se misturaram, mas nunca esqueci o meus exercícios para chegar à aliteração perfeita. E de poeta transloucada, incendiária, implicante, explosiva, passei a estudante de rimas, métricas e palavras, admito que amava muito mais a métrica que as rimas as quais vejo com reservas até hoje (pra rimar tem que ter um talento de Vinicius). Nada me soava mais modernos do que Drummond e sua simplicidade refinada a falar de tudo e emitir opiniões,ele abusava da rima e da ausência dela e era o tempo todo, genial! Um espelho tão grande pra alguém tão pequeno... Sozinha, sem incentivo, nesta ocasião eu tinha a minha intuição, um livro de literatura e o gosto pelos dicionários, não sonhava ser escritora e ninguém vira poeta, um poeta se reconhece na primeira torcida de nariz que o mundo lhe dá.Nascemos poetas, como nascemos seres humanos e nem uma coisa nem outra nos isenta de crescer pelo contrário, são pré-requisitos do gênero... No entanto o que o meu poema perdeu de selvageria, ganhou em poesia propriamente dita. Deixei de discursos poéticos, prosas disfarçadas em textos de linhas quebradas pra aprender com os mestres e hoje sei que aprendi muito pouco. O reinado do poema foi transitório, porém consistente, mas o que sobrou dele foi a emoção de um dia ter tentado sozinha fazer algo de grandioso, mesmo que para ficar oculto no anonimato da minha timidez e nas críticas familiares. Não, a Rosa do "Feijão e o Sonho" não era uma megera, tipo de bruxa dos tempos modernos que Orígenes Lessa criou. Ela estava ali,pertinho, dormindo no quarto ao lado, fazendo comício para que todos me convencessem a estudar cada vez mais matemática...
Antes que me perguntem: Passava de ano por milagre, "puxei"uma única recuperação em toda a minha vida de estudante

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