16 de out de 2009

FRAGMENTOS de CLARICE



O meu sobrinho me mandou um trecho de texto atribuído a Clarice Lispector.
Digo atribuído porque, ponto número um, meu sobrinho jamais foi um leitor de livros. Acho que não foi tão bom aluno porque o extra-classe sempre é muito mais interessante que qualquer conteúdo curricular.
Ele se tornou um leitor depois de ter descoberto o Orkut, mais precisamente, após descobrir o envio de scraps e, para ter mais objetividade, ele passou a ler de verdade, depois dos programas que enviam scraps... Então, ele precisou pesquisar bons ou belos textos para enviar às pessoas e impressioná-las.

São assim quase todos os oriundos de Jacarepaguá da safra - 60/70 - que iam à escola felizes porque, afinal ela era a melhor diversão do bairro. Ponto de encontro dos colegas, a escola era o local de diversão obrigatório enquanto que a igreja era a diversão espontânea porque possível. Fiquei católica porque na igreja podia aprender a tocar violão de graça e de quebra ter parceiros para as composições.... Escola era o local de combinar as brincadeiras e conhecer os pais e avós dos amiguinhos e aí a gente descobre que em assuntos escolares como na vida social, não basta saber, precisa apenas conhecer....

Interessante observar que hoje em dia o "conhecer" tem um status superior ao "saber". No meu tempo (rsrsrsrsr) saber era mais que conhecer. Quando o conhecimento é muito se faz necessária a ajuda poderosa do advérbio de intensidade: "conhece profundamente", "conhece superficialmente" ou "vagamente", ou conhece "pouco" ou "muito pouco" ou "quase nada" . No entanto, "quem sabe, sabe e quem não sabe bate palmas"... E aí entra o ponto número 2:
Na internet atribui-se a autoria e nem sempre essa atribuição é confiável.
Já vi trechos de Drummond atribuídos a Mário Quintana e trechos de Quintana assinados por Fernando Pessoa. Talvez pesquise-se tanto em busca do texto ideal que os caçadores de textos on line acabem por ficarem confusos, do mesmo jeito que ficamos ao misturarmos tudo nas aulas de literatura...
Literatura é chato para quem não consegue perceber que com ela se pode ter 98% de sucesso na paquera.
Hoje percebe-se que uma boa conversa, mesmo que não seja originalmente nossa, possa render uma namorada e tanto, mantendo algumas tantas na fila... O que não percebemos é que essa aliada poderosa na conquista através do intelecto sensível e uso de palavras é Literatura!

Um dia ouvi alguém reclamando muito de um outro alguém que não largava a internet e o pobre do reclamado na verdade estava lendo um noticiário num site de esportes.
Pergunto a você que é minha amiga e suponho ser tão inteligente quanto eu imagino que seja: Ler jornal é bacana, ler livros é tudo! Discutir literatura/obra literária/ autor literário ou simplesmente o assunto abordado que se leu, é o máximo! É o supra-sumo da cultura, um livro debaixo do braço dentro do ônibus ou metrô.
Então, qual é o problema de se ler na internet?

A pessoa que enfiava a cara num livro e só tirava quando chegava na última página, não faz exatamente o mesmo que alguém que navega de site em site?
O menino que ontem comprava revista de "mulher pelada" escondido, é o mesmo que navega pelos sites de "mulher pelada"?
Eu, particularmente, talvez por birra quem sabe devido a idade ou por simples questão de gosto e história, prefiro pegar no papel, amo cheiro de livros novos e jornais frescos. Gosto de ter que lavar as mãos depois de uma boa leitura, e me apoiar na pia e olhar minha cara no espelho e conversar comigo mesma sobre o que eu li. Além do mais, meus olhos ficam cansados de ver a tela iluminada e eu gosto de levar o texto pra onde quer que eu vá.
Gosto de me deitar lendo e uma vez na cama, virar-me pra lá e prá cá buscando preservar o livro, buscando a maneira mais confortável de ler.
O ritual de acender a luminária de cabeceira e baixar o livro da frente do rosto quando alguém me chama faz com que me sinta gente e importante ! A nete deve ter lá seu charme além da funcionalidade, por enquanto penso ser muito mais glamuroso ir à livraria, à banca e nos tempos bicudos dar uma fugidinha e sentar nas livrarias cheias de charme que disponibilizam sofás e chás. Internet com Literatura? no máximo para saber sobre os novos lançamentos, seus preços e ouvir alguns poetas declamando-se no You Tube.

Passei uma fração bem grande da minha adolescência indo pro BarraShopping filar uma leitura na Saraiva ainda não Mega Store.
Ficava também pela pracinha do shopping (uma que tinha uns feijões gigantes) lendo algum livro de alguma obscura biblioteca municipal ou estadual.

Eu morava em Jacarepaguá e isso pressupunha preguiça de ir ao Centro do Rio que tinha bibliotecas iradas, tinha preguiça de um monte de coisa. Jacarepaguá tem a natureza de município e seus habitantes têm a consciência de que se trata de um país, talvez um mundo, talvez um sonho...

O cidadão Jacarepaguense (?) não é um ser humano igual a nenhum outro de qualquer outro lugar do planeta e ele não tem lá muito o hábito de freqüentar por aí bairros estranhos, distantes, cheios de violência...
Quem morava por lá na nessa época queria sossego, churrasco, feira e finais de semana com família e amigos regados a cerveja e vinho da Adega do Ramos. Portanto, biblioteca para teen, era a da rua Dr. Bernardino, ali na Praça Seca, que apesar de ser no mesmo bairro, incluía pegar um ônibus e andar nele 20 minutos. Já era um passeio, mesmo que a biblioteca não fosse nenhuma maravilha... Esse é o problema ou quem sabe a solução: Pode-se fazer de tudo em Jacarepaguá, viver, casar-se e morrer sem jamais tirar os pés do bairro-cidade que sempre fez limite com ele mesmo até o dia em que a Barra deixou de ser a praia particular dos seus moradores. Sim, a Barra sempre foi nossa! Como os filhos que são nossos até acharem que cresceram, que são independentes e que não precisam mais da família original...

Então que eu tenho este histórico perversamente provinciano e você não tem, como minha amiga recente o direito de perguntar como que com essa lírica formação eu me tornei esse tipo de pessoa de língua ferina e dedos ágeis que hoje sou. Até porque quando você for minha amiga de anos (pré-requisito seu,você entenderá perfeitamente bem sem que eu precise me explicar...

É fato que vizinha à biblioteca citada existia a "Play House" e na entrada do "bairro município", precisamente na descida da Grajaú-Jacarepaguá, dando boas vindas aos tolos e teens havia a "Café Creme Discoteque", não vem ao caso explicar porque a minha preferência pela literatura à farra, se hoje sou um ser notívago e isso não surge em ninguém de uma para outra. Não cabe nesse mail, já que depois de tantas voltas o que quero é te repassar o fragmento de Clarice ou de quem quer que ele seja. Você além de me parecer uma conhecedora de Clarice muito mais genuína do que eu, o texto tem muito a ver contigo.
Tem a ver com o que você ultimamente não tem sido ou fundamentalmente com o que você é e guardou para não mais ser.
Tem a ver com o que percebo que os últimos fatos das nossas vida te chamam a ser e, você, vagarosa, lentamente com uma preguiça jacarepaguense, insiste em nâo ver ou em adiar e pedir tempo pra pensar e analisar....

O meu sobrinho de Jacarepaguá, zero em literatura, cujo último livro lido deve ser aquele da série "Para Gostar de Ler" dos anos 70,porém com mais horas de cama do que urubu tem de vôo (e acho que ele só perde em milhagem de cama para o tempo consumido, gasto ou ganho diante do micro) eis que surge com essa pérola de texto, filosofia e verdade.
Parece em princípio receita de bolo ou dica do Paulo Coelho, mas essa é uma característica do novo milênio: deixar tudo meio igual e reduzir o percentual de valor de todas as coisas...
Esse mundo atual fragmenta a gente, segmenta tudo e nomeia o que vê pela frente, deve ser pra facilitar a indexização, otimizando a busca no Google...

Tudo na vida tem um preço. Eu não gostava de me ver transformada em número em algumas ocasiões, como por exemplo na locadora... Mas aprendi a reclamar menos e aproveitar mais. Motivo pelo qual te encaminho o texto que recebi como scrap no orkut e não te repassei por lá por motivos óbvios.
Precisava te encher a paciência com tanto texto, histórias ridículas a fim de alimentar essa amizade improvável e hipotética apesar de a cada dia mais real.
Eu preciso cuidar do patrimônio que será localizado um dia pelos arqueólogos do futuro quando vasculharem as ruínas da internet 2.0...
Eu preciso regar o sonho da minha porção Van Gogh. Já que não fui o poeta romântico e não morri romanticamente de tuberculose, nem fiz sucesso, nem publiquei livro, tenho que ter algum tipo de musa e dar algum tabalho pros pesquisadores do futuro.
Será que não vai haver uma saturação da Web de tanta coisa não acabada trafegando por aí?
No mais, vc é única pessoa que entende essa minha veia.

Você sabe que se eu tivesse tido filhos de verdade não teria essa inquietação, mas precisa haver no mundo aqueles com tempo de para pensar, filosofar ainda enquanto jovens com todo o teor de inquietação, explosão e falta de medo de encarar a vida.
As pessoas crescem depois dos filhos, amadurecem trocando fraldas e preocupando-se com a cria.
Os estéreis e inúteis precisam deixar algo para a posteridade, nem que seja o recalque de não ter cumprido com a real obrigação dos mortais, seguindo as ordens de Deus: "Crescei e multiplicai-vos "...
Ah, eu não vou deixar nenhum ser com os meus traços e não haverá fiapo do meu DNA por aí.
Nada de covinhas e carinhas de bolacha tentando entrar de graça em alguma festa ou show de música.
Nem olhos grandes e escuros se admirando com Robson Crusóe e franzindo testa com Machado de Assis...

O mundo vai ficar mais chato sem a minha presença e um pouco mais vazio sem a minha influência e certamente mais pobre de espírito sem os traços da minha humorística modéstia... O meu humor negro não será transmitido a ninguém a menos que eu consiga gravá-lo em algum lugar para que seja descoberto um dia, quando o país esteja tão perdido em desgraça que valha a pena comprar um texto meu. Será que ainda serei a salvação nacional?

Ainda bem que você parece ter colocado gente decente no mundo enquanto isso, cuido de dar consistência ao meu legado daí, você pode viver as palavras de Clarice, pois que a sua tarefa agora anda por si mesmo e você apenas gerencia a paz do seu lar.

E depois de ler tanta loucura, respire fundo, leia Clarice logo abaixo e me diga se o texto é genuinamente de sua autoria, como um quadro perdido no tempo que só especialistas podem comprovar sua autenticidade.
Feito isso, releia o texto e pense: poderemos ser colegas de classe na faculdade de Filosofia, daqui a 5 anos.
A essa altura do campeonato, estou mais pra Van Gogh que para Gougin, mas não se preocupe, pretendo manter-me distantes das lâminas e armas de fogo e muito perto do tipo de literatura que ninguém ousa fazer. Atrás de um descompromisso porque ja cansei de me comprometer.

Beijo grande, Sucesso Sempre

Seja o que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas."

(CLARICE LISPECTOR)

Nenhum comentário: