21 de mai de 2012

Raul Seixas: O início, o fim e o meio (Raul Seixas, 2012)

É o melhor documentário já feito sobre a vida de uma pessoa pública. Saí do cinema sabendo sobre a vida do artista, entendendo o que eu pensava que já sabia antes e, azar o meu, se o filme não me fez compreender o que antes já era incompreendido: O que afinal caracteriza os geniais? A loucura? O inusitado? O Brasil abriga um incontável amontoado de talentos, alguns geniais, no entanto inverter a trajetória do nosso cometa, não depende de nós... Como brinde, o filme oferece muitas imagens bacanas, personagens e personalidades que fizeram parte da vida do compositor. O documentário passeia pela ditadura, tropicalismo, festivais. Raul Seixas não viveu, aconteceu! Colocou imagens e coração numa trilha sonora que já veio com ele, uma cena rock’n rol de 44 anos de duração. Raul em essência era sua própria sua música concreta nas melodias que embalam nossa realidade. Era uma vez um homem, suas muitas mulheres e muitos vícios que se lhe deram prazer, afastaram-no da felicidade, essa felicidade careta que muitas vezes fazem nossos sonhos existirem por mais tempo. O vício em “todo tipo de droga, menos maconha  -  que de maconha ele não gostava" - com ênfase no álcool era a trilha para o final da linha para os romances de Raul, menos um: o seu  primeiro casamento com Edith, a namorada de adolescência . Esta, ao ser "abandonada" enquanto Raul ia ali até Brasília ficar com Glória, a irmã do seu guitarrista, foi embora, voltou para o seu país, levando a filha do casal e nunca mais esta família voltaria a se reunir. Raul passou a vida remoendo tristeza e arrependimento por este ato, por esta perda.
Ninguém conseguia acompanhá-lo nas suas intensidades ‘tóxicossociais’, nem mesmo o guru satânico que depois viraria mago, não sem antes lhe apresentar às maldições nas suas mais variadas formas. Fiquei a pensar na generosidade desse baiano magrelo que ensinou “o mago” a fazer letras de música e em troca, com ele aprendeu a se decompor biodegradavelmente em frascos e ácidos.
Raul era doce, duas de suas antigas esposas afirmam que ele tinha um cheiro doce. Uma fala de forma romântica a outra, objetivamente atribui o cheiro e o sabor à diabetes do músico. É fato que aquele homem nem tão belo assim, muito magro, cabeludo e bastante doido era tão verdadeiro no seu sentimento, que conseguia manter consensualmente romances simultâneos com suas “atuais” e “ex”. Nesses depoimentos  a platéia se acabava de rir... da situação dos triângulos amorosos consentidos pelas partes envolvidas. Como a caretice é prejudicial à felicidade que aparentemente preserva...
O documentário é muito comovente, rodado entre Bahia, Rio, São Paulo, Estados Unidos, Genebra. A equipe fez o trajeto da diáspora  Raulseixista. Mostra o fã dono do mítico baú e suas preciosas relíquias, que  se tornou amigo do astro, carregando-o embriagado quando era preciso sem perder a admiração. Descobrimos que o “Trem das Sete” teve uma dona e  hoje  é de todo aquele que acredita que amor, atestado de garantia e certificado de posse são as mesmas coisas...
Raul tem um neto que é sua xerox, mas o moleque mora no exterior e não falou sobre o avô, que pena. A filha mais velha tem mágoa do pai, não gravou depoimento, mas escreveu uma carta; a segunda filha é uma gracinha, mas é a filha “brasileira do Brasil” – as outras moram na América do Norte - que dá show de orgulho de ser filha do maluco beleza. Viu como o documentário é bom? É como uma reunião de amigos, parentes e agregados em torno da figura do mito tão trágico quanto divertido.
Saí do cinema aliviada com as palavras do Marcelo Nova: “Ele fez 50 shows! Morreu fazendo o que gostava, cantando! Não morreu esquecido, nem anônimo num quarto escuro”. Marcelo Nova: Parabéns! Obrigada! Mas e agora o que eu faço com a sensação de que não devo ser tão genial quanto pareço, porque não sei ir tão fundo naquilo que dá celebridade aos imortais? Ser careta é meu atestado de mediocridade? Fiquei me sentindo uma roqueira de subúrbio. Daquelas que assistem ao show pela TV da barraquinha de hot dog atrás do Madureira Shopping, que antes de sair de casa lava e passa a camiseta preta com frases em inglês... Se você entendeu que a celebridade dos imortais está nas drogas, esclareço:  O que dá celebridade aos geniais, é a coragem. Coragem de se arriscar e até de perder. Perder afeto, mulheres, a convivência com os filhos, ver os amigos virarem-lhe a cara e negar-lhe oportunidades. Por mais que digam que a vida é escolha, acredito que para escolher há que se ter opções e, onde estão elas quando não vemos o que escolhemos? O esforço pra ser “um sujeito normal e fazer tudo igual“ não é escolha. Aprender a ser louco é dom! Somos apenas criaturas seguindo o caminho que os olhos enxergam. Cumprimos nosso destino.
Com Claudio Roberto - Paulo Coelho - Marcelo Nova









ra Era destino  de  Raul 

seguir sua carência, se entristecer a vida inteira por um ato que não resultou no que ele possa ter imaginado. Sua incapacidade de viver só, sua pancreatite regada pelo álcool que ele nunca conseguiu deixar, ainda que tivesse conseguido parar com as drogas ilícitas. Sua falta de vontade de viver e a falta de crédito para que voltasse a gravar definharam sua saúde, mas nada disso se compara ao vigor da sua obra eternizada, passando de geração em geração ainda que muitas das suas mensagens não sejam imediatamente captadas, são seladas, carimbadas, se pra gente voar. O destino de Raul foi ganhar essa legião de tipos, diferentes dele e entre si. Em comum os olhos úmidos na saída do cinema, porque a gente viveu ao menos pelo tempo de uma música,  Raulzitamente. Ah, a mim pareceu que e o Paulo Coelho matou a única mosca de Genebra...

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