12 de jul de 2010

Minha Noite Com a Prostituta - parte 1

Esse título com cara de Tico Santa Cruz pretende tentar contar uma noite que passei com uma prostituta. Pequena de fala mansa e voz suave. Aposentada, sim, mas orgulhosa da sua profissão, do seu passado. Cá pra nós, senti-me tão careta! Percebi que sou sim, careta e tenho lá meus momentos de cafonice, um deles agora exatamente, outros quando cismo de ouvir Roberto Carlos e ouço porque gosto. É isso. Às vezes na vida fazer coisas estranhas por puro gosto... Isso é atitude no sentido de ação, na forma de descruzar-se os braços, no direito de realmente acreditar em algo e não dar realmente importância  que outros pensarão ou que possa acontecer depois. Atitude como ação pode ser uma puta irresponsabilidade, um momento de impulso ou tão somente o momento de ser.
Eu sou uma pessoa, não eu sou mais que pessoa, eu sou uma mulher. No meu invólucro tem um rótulo: imprópria para consumo. É praxe da sociedade rotular mulheres como perigo e após 40 anos desapropriar-lhe o consumo irrestrito. Há um tempo sem emprego, caí na clandestinidade. Acostumei-me a lidar com a indiferença, com as críticas, com as dificuldades e a viver no improviso. Porém não me acostumo a fazer parte do coro, a viver vida de gado, a escolher o que é mais fácil, a abrir mão do que eu penso, n]ao com facilidade se julgar que penso algo próximo da verdade. A verdade é o que sinto, a verdade é onde o calo aperta, a verdade é o que dói. Eu faço trabalho social nas horas vagas e essas tem sido muitas. Logo passo muito tempo precisando provar que sou sincera, que tenho boas intenções, que não uso as pessoas, que sou honesta.
Aprendi a não ter medo. Saio à noite, vou à boates, sozinha ou não. Bebo às vezes, fumo às vezes, nunca experimentei nenhum tipo de droga ilegal e isso me faz sentir-me off, over, mas acho bem legal. Pressinto vota e meia, o choque percebo que vou na contra-mão. A contra-mão é o tempo, o gênero, a cor, a forma do corpo e o penteado dos cabelos. A contra-mão é tudo aquilo para o qual escreveram ou ditaram regulamentos e entrava a nossa garganta.
E se houve um tempo em que eu li demais, hoje leio menos que gostaria. Isso me joga num fosso com a maior das solidões, aquela que me separa de mim mesma. Quando ia para barzinho com amigos, saía antes da meia-noite ou ficava até o amanhecer, mas a leitura em excesso me deixava solitária até que de volta pra casa eu pudesse conversar comigo mesma no caminho.
Quando se passa dos 40 sem filhos, sem casamento e sem mãe doente para cuidar, sem um bom pretexto, sem uma boa desculpa, não tem jeito.... Família é muito legal, é a boa desculpa de muitos para não tentarem ser felizes. Para não terem tempo para si.Para viverem uma vida de mentiras ou de frustrações, quem sabe ambos? Seria esse tipo de solidão que leva homens a pagar por uma companhia?  Acho que não. Homens pagam por companhia e sexo, porque é da sua natureza. Se a caça é mal sucedida, eles tem essa opção. Se a vida é minguada de prazeres eles dispõem dessa prateleira. Homens jamais ficam sós, a menos que queiram. Homens jamais tem rotina. Homens nunca serão feios o suficientes para enlouquecerem por falta de prazer a dois. Não existe homem gordo demais, nem magro demais, nem burro demais, nem grosso demais.  E não vou aqui falar das mulheres, porque essas sã complexa, complicadas, difíceis e falar sobre gastaria meu tempo, e sua paciência. Mas posso dizer sobre o dia de homem que tive.

Eu a conheci num bar. Apresentada por um amigo. Não me decepcionei  porque nada esperava. Mignon, esse era o tipo dela. Pequena, voz mansa e suave mas não doce. Mais velha que eu como deve sempre ser. Humor ácido como as frutas cítricas. Uma delicadeza comovente e sei lá de onde aparecia uma força que assustava. Diante dela eu teria algumas alternativas: Bater e correr. Ficar e admirar. Ouvir e desconfiar. Deixar pra lá. Mas é que ela é daquelas onde  a indiferença não cabe. E foi um prazer conhecê-la, como uma lenda assustadora que um dia saiu do almanaque só pra me assustar. Só pra mexer com o pouco de certo que eu sabia.
Prostitutas não são confiáveis, pois que elas sempre são estranhas. Jamais saberemos onde termina a mulher e onde começa a profissional. O que ela acha porque pensa e o que ela diz achar porque é melhor assim. Se existe um momento real onde o freguês tem razão é sempre ao lado de uma prostituta...
Mas ela chegou na minha vida com a notoriedade da recomendação de um bom amigo. Pensei: Ele a comeu! Tola como sempre as mulheres são, perdidas em divagações nascidas da desconfiança idiota que serve como estímulo à transgressão. Já faz tempo que sei que nenhum homem come uma mulher. Ele pode no máximo triturá-la, mas comer e atributo feminino. Só as mulheres comem de verdade. O verbo engolir é transitivo direto, adjetivo e feminino.
E de repente lá estava eu: Com um microfone na mão, apresentando para um grupo de incrédulas e ignorantes mulheres, com grandes adjetivos aquela pequena senhora e senti um ar de surpresa e cerimônia como se eu tivesse tocado a trombeta e soltado os brado: Sua majestade a prostitua! Eu lembro como se fosse ainda há pouco de ter falado do meu prazer e satisfação em ter encontrado naquele bar um dia uma pessoa que conhecer pela internet. Eu sei que como "dona" de um evento, viro rainha do baile e todo mundo tem para comigo alguma reverência, algumas expectativas e um tremendo orgulho ao obter minha atenção. Ali, eu formo opinião favorável ou não mas seja qual for com as mão que seguram rosas, é inevitável os respingos em mim.
Lá estava eu apresentando uma mulher com nome e sobrenome e prostitua de renome. Em certas noites qualquer notoriedade é fama. Ela foi amplamente aplaudida e quem esteve com ela antes da apresentação franziu a testa e ficou desconfortável. E quem  não deu-lhe a mínima, torceu para uma nova oportunidade. Terminado o evento, sobrou tempo para a birita que mal bebo e a nossa pele pediu ar puro. Fomos pra um boteco qualquer, desse que cagam e andam para o choque de ordem das almofadas que insistem em achar-se no poder. Fomos em, grupo desses que vão desfazendo enquanto a madrugada avança como pintura de mulher noite adentro. Fomos tagarelando como quem tivesse passado tempo além do desejável numa ilha deserta, paradisíaca sem idéias. Eu tinha fome, ela tinha sede. Os amigos, curiosidade.
Ela respondeu perguntas como se fosse pop star. Contou trechos de sua vida, contou sua historia de amor e eu senti-me jogada dentro de um conto de fadas que Woddy Allen adoraria contar. Eu tinha uma pergunta. Apenas uma.
Como criança cuja brincadeira preferida é desconstruir o brinquedo. Como menina que não viveu. Como macho que mais que tesão tem carência e necessidade de orbitar. Eu tinha uma pergunta. Tola. Inóqua, pois não faria diferença a resposta, eu apenas precisava saber. Estávamos na Lapa, à beira da rua, num boteco de quinta e esquina. Uma amiga se retirou. Outro amigo se foi. E eu fiquei frente a frente com ela. Eu e minha suposta ingenuidade. Ela e sua perceptível experiência. Fazia um pouco de frio e eu lhe ofereci meu casaco o qual ela recusou. Ainda assim, coloquei o pesado casaco de forro e capuz nos seus ombros. Ela parecia tremer de frio ou estaria  insegura por estar de frente com uma mulher?
Eu sempre gostei dos textos do Tico santa Cruz no seu blog escuro quase obscuro repleto de comentários, mas confesso que à vezes ele escreve demais e eu tenho preguiça. A qualidade do texto eu meço pela minha persistência em  ler. E você conseguiu chegar até aqui?


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