4 de fev de 2012

Sirlei, Galdino, Vítor, Kleber, Rafael - Fábulas Urbanas

Tadeu foi localizado e preso na sexta-feira, dia 03/02/012. Rafael Zanini Maiolino, continua foragido

Olha, confesso que estou com dificuldades de assimilar essa ocorrência, esse absurdo, essa ação sem nome...
Duas faces da juventude se encontraram: 3 que espancavam o mendigo por não reconhecê-lo como gente, 1que em menor número se arriscou para defender um ser humano e mais 1 que teve a idéia de  falar com o grupo de espancadores, sem no entanto ter coragem de agir, permitindo que o amigo fosse agredido sozinho.

O nome do rapaz agredido, é Vítor, Vitor Suarez Cunha, que p
agou caro por sua intervenção, nessa, podemos dizer literalmente,  história do bem contra o mal. Observo que o lado mal é superior em número, energia e talvez preparo físico - presumo que nenhum fracote vá sair por aí espancando as pessoas.
Esse fato deveria ser amplamente difundido, como uma fábula, um sociodrama, uma história da carochinha, um estudo de caso... A simbologia do caos educacional-social-afetivo que estamos sendo obrigados a viver nos dias de hoje, principalmente se analisarmos que estamos diariamente diante de vários fatos violentos e,  assistimos...

Qual de nós entraria nessa briga desigual para defender um ser humano jogado na sarjeta feito lixo, daqueles que evitamos na rua ou na calçada de um bar?  Cito calçada de bar, pois quem frequenta sabe sobre o assédio de ambulantes (geralmente vendedores-mirins de balas, chicletes e afins), "crackudos", pedintes e mesmos rapazes saudáveis pedindo (exigindo) um cigarrinho.
Um ser humano com uma aparência daquelas que nos faz taquicardia e contar mental e automaticamente o quanto temos no bolso, segurar firme a bolsa pedindo proteção ao nosso anjo da guarda?

O desprendimento desse jovem foi proporcional à animalidade dos outros 3 potencializado pela neutralidade do seu amigo, que chamou para intervir mas ficou só olhando. Talvez Vítor tenha sido rápido demais,Talvez  o seu  amigo Kléber,   tivesse sido lento demais,  não importa. É fato que sua figura é perfeita para representar a maioria de nós, que vemos o erro, nos indignamos sem uma ação efetiva. Talvez o muro onde  Kléber  se alojou seja muito muito alto no entanto, imagino que jamais voltará a ser confortável como o nosso que nos guarda distantes dos fatos, no alto,  tranquilos para emitir opiniões como esta minha, aqui no blog...

E por falar em opiniões, é certo que ao longo dos dias e noticiários que virão, ainda veremos muitas opiniões. Certamente, terá 
alguém dizendo que ele (Vítor) não deveria ter se envolvido, do mesmo jeito que no passado disseram que Sirlei, a empregada doméstica  espancada na Barra da Tijuca era prostituta.
Do mesmo jeito que minimizaram, há algum tempo, os agredidos com uma lâmpada em Sampa, afinal, eram gays. 
Do mesmo jeito que alguns defenderam o goleiro Bruno, afinal , a vítima era uma piriguete.
Do mesmo que os adolescentes de Brasília, assassinos do índio Galdino, vociferaram que pensaram se tratar apenas de  um mendigo.

Opiniões...
Como o corpo - ia dizer bunda, mas essa palavra tão risonha, poderia descredenciar o meu raciocínio...Pois então:
A opinião é como o corpo, cada um tem o seu e o trata como lhe convém, o que não significa necessariamente que este tratamento não receba nenhuma influência de terceiros...

Vivemos em tempo de caos. Precisamos antes de analisar qualquer situação pensarmos bem no que dizemos.
Vivemos em tempo de colapso,  onde qualquer menino bem vestido, a princípio, é melhor do que qualquer garoto mal trajado.
Vivemos em tempos de falência, onde antes de avaliarmos um crime, analisamos a procedência da vítima o que favorece para as  linhas de defesa excluir da classe dos seres humanos mendigos, índios, prostitutas, "piriguetes", gays e tudo mais que secretamente a nossa sociedade considera entulho social, dessa forma atenuando crimes de agressão contra essas... hum como chamar esse grupo alijado da classe humana?  humanóide? Traste? Câncer social? Lixo? Resíduos do inferno? Criaturas diabólicas? Azarados? Coitados?
Hã.. Hum...
Não sei. Ainda tenho comigo resíduos (ou seriam detritos) de uma educação suburbana antiga com o conceito que são pessoas e que pessoas merecem respeito porque são exatamente como nós em essência biológica. Socialmente até merecem a mágica do com-licença, por-favor, obrigada, desculpe. Essas coisas de uma educação familiar, do tempo que família servia para além de conviver-sustentar- presentear-se vangloriar, orientar, educar e se responsabilizar.
Vivemos tempos em que cada grupo, segmento, etnia, minoria precisa ter sua legislação especifica para resguardar alguns direitos como o de não se insultado, não ser agredido, não ser morto,  pois que o nosso código civil não parece ser o suficiente ou talvez não seja eficiente para punir culpados.
O que antes seria função familiar hoje é atribuição do Estado que sem visão humanista para com as profissões essenciais na educação, manutenção e preservação da vida (professores, médicos, bombeiros) segue "educando" sob formas de leis punitivas diante de uma realidade que descredencia a Constituição que roucamente anuncia que todos são iguais perante a lei numa sociedade em que cada vez mais existem cidadãos completamente mais iguais que os outros...
Qualquer animal tem mais grupo de ativistas a defender os seus direitos do que um mendigo... Qualquer bicho abandonado tem mais pessoas propensas a adotá-los do que crianças que não sejam bebês de pele clarinha e,  essas crianças são tão pouco valiosas para nossa sociedade que nem mesmo um casal gay pode, legalmente e sem traumas tirá-las dos orfanatos... Nada tenho contra adoção de animais, inclusive durante toda a minha vida tive e TENHO animais completamente SRD recolhidos da rua, algumas vezes sob ameaça trocarmos de lugar, minha mãe não dava moleza.
Tudo a favor dos animais. Nada contra eles, muito pelo contrário.
Eu tenho contra a hipocrisia.
Mas este é um outro assunto.
Voltando a fábula "O Espancamento na Ilha do Governador": 
Esse caso é extremamente emblemático, divulguemos a foto dos bandidos, mas analisemos a paisagem do nosso interior.
Rezemos pelos agredidos, mas vamos parar de nos esquecer dos assassinos, que quase sempre recebem penas irrelevantes diante dos crimes cometidos.
Não basta ir pra cadeia, TEM QUE FICAR NA CADEIA!
Não é preciso matar, esfolar afinal,  a Lei de Talião não vigora por aqui, mas há que se ter justiça na teoria e na prática. Há que se ter indignação e ela precisa permanecer.

Assumo que estou falando no calor da emoção,  sobre a versão de uma das partes. Ainda que não seja exatamente assim, o fato configurado desta forma, não perde sua relevância como material para meditação. 
É pra ficarmos ligado, ligadinhos, ligadíssimos.
E porque fugiriam os que tem razão? Por medo da prisão? Ora não se está falando de pessoas ignorantes e sem recursos. Quem tem tanto medo de punição, respeita a lei. 
Que tipo de respeito pode haver dentro de uma pessoa que espanca um indefeso?
O que pode justificar um ser humano deixar outro na situação que deixaram o Vítor?
Qual o desfecho dessa história, se Vítor não tivesse aparecido? Mais um indigente no IML e uma nota de rodapé nos jornais, no cantinho do nosso monitor?
Nada nessa história desmotiva uma pausa para pensar...

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